Vida de escritora é fácil?
O que você faz mesmo? Ah, acho que deve ser ótimo, você faz seu horário, né? deve trabalhar pouco, queria tanto conseguir um dia trabalhar assim, pouquinho pouquinho...
Eu deveria ter dito, lavro, águo, planto, toso, observo, torno a tosar palavras. Todos os dias fio palavras, e no ato da revisão, pergunto a mim e ao outro, essa narrativa está publicável? Sim, diz o leitor beta, mas eu mesma digo, eu ainda não tenho certeza. Alguns anos passam e retomo o mesmo texto, ah, preciso desengavetar, até para criar espaço para novas teias. Já fiei tudo, conferi, estou nauseada de tanto ler em voz alta. Coragem, venha por favor, traga cor, o arco íris para essa gaveta com cheiro de naftalina.
Ufa, ela me escutou. Estou seguindo meus passos no primeiro dia de aula, o frio na barriga, o mantra, o que acontecerá nessa sala desconhecida? Minhas mãos não estão mais miúdas, os dedos crescidos aguardam o ponto final. Ei, escritora, vamos dar um fim e partir para outra história? Um, dois, três, quase sem ar, vamos nessa. Ponto e vírgula, porque não sei se depois de me embrenhar nesse rio, enfrentar os cipós nodosos que tentam me segurar, sairei ilesa.
A correnteza me salvou, na beira, toco nas pernas raladas, publiquei, doeu para gestar, revisar. Coloquei unguento, agradeci. A jornada desse livro me fez crescer, anos atrás talvez eu não conseguisse dar tônus a esse personagem.
Voltando à pergunta e ao comentário infeliz, o que você faz mesmo? Ah, acho que deve ser ótimo, você faz seu horário, né? deve trabalhar pouco, queria tanto conseguir um dia trabalhar tão pouquinho...
Será que as marcas dos meus dedos, os calos, não respondem ao julgador, ou terei de evocar ânimo para responder comentários dos palpiteiros de ocasião, cá para nós, desconfio, são pessoas desconhecedoras do trabalho intelectual. Não fico ressentida com pessoas assim, acredito que são o produto de uma sociedade pouco crítica.
Se no país tivéssemos uma hora por dia destinada à literatura, se em cada banco de ônibus e metrô leitores lessem livros e não estivessem ligados nas telas dos celulares. Se nas redes não tivesse tanto modismo, influenciadores, formadores de opinião por vezes rasos que constantemente copiam e colam resenhas de livros, se nas praças, saraus, mesas, encontros democratizassem ainda mais o acesso aos livros, se nas escolas livros fossem lidos de fato e interpretados, se em cada esquina tivesse uma livraria de portas abertas, duvido e muito que eu escutaria comentários dessa monta.
Diante da página em branco, meu ressentimento.
E não posso deixar de lembrar, antes de me aposentar, eu cronometrava o tempo, 1O:42 o alarme tocava, ligeirinha eu entrava no box, ligeirinha eu trocava de roupa e rapidinho aprendi a correr. Só não conseguia comer depressa, levava minha marmita e no refeitório construí belas amizades. Depois do papo, cheia de energia, atendia ao balcão e constatava as maluquices, pedofilia, arengas, alienação parental, o pior vindo dos humanos. A escrita em mim urgia, clamava, nós duas latejávamos, nos casamos, para sempre, o único amor eterno, ao menos para mim. Nos perdoamos, nossas gralhas, somos imperfeitas porque a perfeição, ora, leitor, é insuportável de chata.
Aposentada do cartório, escrevo sem pressa. Sinto-me recompensada por ter escrito quatro livros sob a égide de um alarme, de ter sido reconhecida por dois desses livros. E da janela, diante do computador, termino meu próximo romance. Três anos seguidos de reescrita, ancorada de coragem enviei para a Faria e Silva e o original foi aceito. Acredito que seja lançado em 2026.
Novas histórias me visitam o tempo inteiro, estou atenta a novos projetos, talvez um deles dê samba, talvez não. Atualmente arranho uns contos com uma pegada de suspense e horror, uma novela infanto juvenil e diários de viagem. Horas de reescrita que me distraem e me apavoram e talvez eu consiga cruzar o rio sem tantas ranhuras.
Sigo lendo meus pares e os clássicos do gênio Dostoievski conjuntamente com uma turma maravilhosa (Dostoievski é professor, os livros são aulas magmas de escrita). Lemos o “ Idiota” e o próximo será “ Crime e castigo”, quem se interessar posso fornecer o contato do mestre e doutor em literatura Carlos Eduardo Varella.
As próximas impressões sobre minhas leituras serão publicadas por aqui. “ Sob a pele de Maria” contos de Milena Maria Testa, editora Patuá e “Herói e Maria” romance de Haron Gamal, editora Cajuína.




Outro dia, em um evento com Bel Santos Mayer, ela falou da importância de ter fôlego para escrever um romance. Nem todo mundo tem esse fôlego, esse tempo, para escrever, reescrever. Lendo sua news, lembrei disso.