A esperança
Cai uma pétala na varanda e, logo depois, o cachorro uiva. Anuncia trovoada? Na rua, apenas alguns bichinhos procuram flores. Diante da minha mesa branca, avisto a pétala despedaçada, formigas fazendo festa. O cão late alto; escuto e saio do conforto das palavras meladas. Ele vai se cansar, não há de ser nada.
As formigas devoram o talo, a flor branca amarronza-se, e ele torna a latir em choro. Largo a palavra e, ao chegar à sua casinha, encontro um lagarto tingido de cinco cores. O cão lambe meu rosto, pede ajuda. Nós dois recuamos, temendo a mordida. Nem sei se lagarto morde. Para trás deixamos a cambuca de inox cheia d’água, para o réptil matar a sede.
O cão dorme nesse instante no aconchego dos meus braços. Lá fora, a rua dá medo: daqui observo as chamas tomando o quadro antes da cor do arco‑íris. As palhetas sépias invadem o quintal, e a rua é varrida por uma areia fina que cega os olhos. O calçamento vira um grande areal. Os lábios ressecam em segundos, os olhos purgam. Bate uma sede estrondosa. Procuro o celular: fora de área. Ligo a televisão: chiado, fora do ar. Foragida em minha própria casa, penso na finitude.
Subo às pressas com meu guardião em direção ao sótão e procuro a fotografia viva do mar. Sem mar de água, avisto o ar em cinzas. Abraço o corpo do velho cão. Sozinhos, no patamar mais alto, vemos o que restou das pétalas. Na mesa, livros desalinhados; em nós, a certeza de que adormeceremos e, depois da trovoada, virão lindos dias de sol.
De dia, o mar torna a aparecer. O mar e a rua, o céu careca de nuvens, o vento fresco. O cão, louco para voltar à sua casa, encontra o lagarto ocupando sua cama, bebendo sua água e não deixando nem um tantinho de ração. Ele rosna, reclama, e o lagarto arco‑íris abana o rabo e foge. Ligeiro, mergulha na grama verdinha e deixa para trás um rastro de fezes lagartas onde se lê: volto já ao anoitecer.


